A geografia da longevidade

    Porque se vive menos em Portugal do que em Espanha?

    Para perceber a diferença de esperança de vida, cruzámos as idades em que ela se concentra com as causas de morte registadas. Nos homens dos 40 aos 64 anos, os cancros são a maior diferença identificada; nas mulheres dos 80 aos 94, destacam-se as doenças cerebrovasculares e a pneumonia.

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    Em Espanha vive-se, em média, mais um ano e meio do que em Portugal. Quando se abrem as tábuas de mortalidade de 2024, mais de metade da diferença nos homens aparece numa faixa precisa: entre os 40 e os 64 anos. Nas mulheres, o maior contributo vem dos 80 aos 94 anos.

    Nos homens, esses 25 anos de idade representam 0,88 anos dos 1,64 que os separam dos espanhóis: cerca de 54%. Nas mulheres, as idades dos 80 aos 94 contribuem com 0,62 anos de uma diferença de 1,32: cerca de 47%. Eurostat, tábuas de mortalidade; cálculo próprio

    Contributos por idade para a diferença de esperança de vida entre Portugal e Espanha, homens e mulheres, 2024.

    Figura 1. Ampliar o gráfico. Anos de diferença de esperança de vida, 2024. Valores positivos contribuem para a vantagem espanhola; negativos favorecem Portugal. Fonte: tábuas Eurostat e cálculo próprio.

    A esperança de vida resume as taxas de mortalidade de um ano: estima quantos anos viveria, em média, um recém-nascido se essas condições se mantivessem ao longo da vida. É uma fotografia das condições de sobrevivência, sujeitas a mudança.

    Portugal acima da média, Espanha no topo

    Portugal tinha uma esperança de vida à nascença de 82,5 anos em 2024. Ficava um ano acima dos 81,5 estimados para a União Europeia. Espanha, com 84,0 anos, liderava os 27 países. A comparação põe Portugal ao lado do país com a maior longevidade da UE. Eurostat, esperança de vida

    Esperança de vida à nascença em Portugal e Espanha, por sexo, 2024.

    Figura 2. Ampliar o gráfico. Anos de esperança de vida à nascença, 2024. Fonte: Eurostat, demo_mlexpec. A estimativa da UE, referida no texto, está assinalada como estimada e provisória na fonte.

    O que ajuda a explicar a diferença de esperança de vida entre Portugal e Espanha?

    Para responder, comparámos as causas de morte nas idades em que a diferença mais pesa. Nos homens dos 40 aos 64 anos, os cancros são a maior diferença entre as causas identificadas. Nas mulheres dos 80 aos 94, destacam-se as doenças cerebrovasculares e a pneumonia.

    A decomposição anterior mostra em que idades se concentra a diferença. Cruzámos os óbitos por causa, idade e sexo com a população residente, usando 2023, o ano mais recente com dados completos para ambos nesta consulta, e a mesma composição etária na comparação. Esta análise identifica diferenças nas taxas de mortalidade por causa; os contributos em anos de esperança de vida vêm da decomposição das tábuas de 2024. Eurostat, óbitos por causa e população por idade

    Entre os homens dos 40 aos 64 anos, a taxa de mortalidade era de cerca de 530 por 100 mil em Portugal e 384 em Espanha. Os cancros eram a maior diferença entre as doenças identificadas: 203 contra 147 por 100 mil. Representavam cerca de 38% da diferença total de mortalidade nesta faixa etária.

    Diferença de mortalidade por grupos de causas entre homens de 40 a 64 anos, Portugal menos Espanha, 2023.

    Figura 3. Ampliar o gráfico. Diferença de taxas por 100 mil homens, ajustadas à mesma distribuição de idades dos 40 aos 64 anos. Os grupos não se sobrepõem e somam a diferença total. «Restantes causas» inclui as categorias não mostradas separadamente. Fonte: Eurostat, hlth_cd_aro e demo_pjan; cálculo próprio. Os 38% repartem uma diferença de mortalidade em 2023, não os anos da diferença de esperança de vida em 2024.

    Dentro dos cancros, sobressaem os da boca e faringe, com taxas de 18,1 em Portugal e 6,6 em Espanha, e o do estômago, com 15,6 e 7,4. As causas externas, que incluem acidentes e suicídios, e as doenças digestivas também pesam na desvantagem portuguesa.

    O retrato muda com a idade e o sexo. No conjunto da população, a mortalidade por cancro do pulmão era inferior em Portugal. Entre estes homens de meia-idade, era superior: 47,8 contra 42,3 por 100 mil.

    Nas mulheres mais velhas, outra história

    Entre as mulheres dos 80 aos 94 anos, a mortalidade por doenças cerebrovasculares, onde se incluem os AVC, chegava a 810 por 100 mil em Portugal, contra 474 em Espanha. Na pneumonia, eram 399 e 183. São comparações dentro da mesma faixa etária e com a mesma ponderação das idades.

    O sinal cerebrovascular aparece também nas taxas para todas as idades e ambos os sexos: 67,0 mortes por 100 mil em Portugal, contra 41,0 em Espanha, cerca de 63% mais. Eurostat, taxas padronizadas de mortalidade

    A pressão arterial liga estes números à prevenção. A Organização Mundial da Saúde identifica a hipertensão como o principal factor de risco modificável de AVC. O controlo desse risco é uma parte concreta da história que merece atenção. OMS, AVC

    Há, porém, uma dificuldade na forma como as mortes são registadas. A categoria de sintomas, sinais e causas mal definidas representa cerca de 19% da diferença de mortalidade entre os homens de meia-idade; nas mulheres dos 80 aos 94, é o grupo com a maior diferença de taxas. Isso limita a precisão com que podemos atribuir a distância entre os países a doenças específicas. Estes óbitos ficaram visíveis na análise, sem serem redistribuídos por outras causas.

    Sabemos em que idades estão os anos que faltam. Ainda não sabemos porque faltam.

    Dados dos gráficos e método de cálculo

    Nota de dados e método. Verificação em 21 de Outubro de 2026. Esperança de vida e decomposição por idade: 2024. Óbitos por causa e população usada no novo cálculo: 2023. Os dados detalhados de 2024 e 2025 não estavam completos para esta comparação PT–ES. As taxas novas usam óbitos de residentes, dentro e fora do país (TOT_RESID), e a média da população em 1 de Janeiro de 2023 e 2024. Calculámos taxas em grupos de cinco anos e aplicámos, aos dois países, pesos idênticos: a população conjunta de Portugal e Espanha em cada faixa etária e sexo. São taxas de cálculo próprio, distintas das taxas para todas as idades padronizadas pela população europeia de 2013. A categoria de cancro corresponde a C00–C97; «boca e faringe» inclui lábio, cavidade oral e faringe, C00–C14. A categoria R00–R99 inclui sintomas, sinais e resultados anormais não classificados noutros grupos. Os capítulos de causas foram reconciliados com o total dos óbitos em todas as células usadas. Dados omissos e confidenciais não foram tratados como zeros. Não foram calculados intervalos de confiança. As diferenças de certificação e codificação podem afectar a comparação.

    A decomposição da esperança de vida mantém a substituição sequencial por idade, com média das duas direcções, incluindo separadamente o intervalo aberto de 95 ou mais anos. Na reconstrução, a diferença total é de 1,46336 anos; nos valores publicados, arredondados, é de 1,5. Os resultados dependem do método e do arredondamento dos dados de origem. As taxas por causa de 2023 não fornecem uma atribuição causal dos anos da diferença de 2024. O valor de 82,7 anos citado para Portugal no perfil OCDE de 2025 face aos 82,5 da série Eurostat actual decorre de duas publicações de vintagens diferentes; a origem exacta dessa divergência não foi apurada. A média da UE está assinalada como estimada e provisória. Não se misturam estimativas anuais com os triénios nacionais do INE. Metadados das causas de morte

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